O Apostolado Leonid Feodorov é um apostolado virtual de espiritualidade Bizantina
O Abençoado Leonid Feodorov foi um mártir Bizantino Russo e Exarca da Igreja Russa unida Roma, foi beatificado pelo Pontífice Ecumênico João Paulo II, durante sua visita a Ucrânia.
"Todos da Rússia canta seus louvores, ó Santo Hierarca. Suas ações e vida se espalharam para os confins da terra. Você abraçou a própria oração do Salvador mais doce "Que todos sejam um" ao desejo de toda a sua vida, e foi uma luz que guiou a todos os que você encontrou. Como um grande pastor na terra, e fervoroso intercessor celeste, todos nós gritamos do fundo de nossos corações de alegria: Aleluia."

domingo, 12 de março de 2017

Eclesiologia Católica Orienta - Primado e Infalibilidade: o que teologia diz? - Parte III

Em 16 de outubro de 1963, Kyr Elias Zoghby, Vigário Patriarcal no Egito e no Sudão, lembra numa importante intervenção no Concílio Vaticano II o ponto de vista o ponto da teologia oriental sobre o exercício do primado romano e suas relações com o episcopado.
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Estas duas partes da Igreja, o Oriente e o Ocidente, viveram suficientemente em paz durante o primeiro milênio, com a sua própria constituição, sua própria disciplina, sua própria teologia, seus próprios usos, suas línguas, seu carácter e sua espiritualidade. O estado de separação é um estado anormal na Igreja. Seria bom prever alguns parágrafos sobre as Igrejas particulares, tanto latinas como orientais.

No que concerne, por exemplo, ao primado do Pontífice Romano, as Igrejas Orientais nunca negaram a sua existência, nem que ele fosse o princípio da catolicidade. Mas, de fato, após tantos séculos de separação, esta doutrina, entre nós, conheceu tal evolução unilateral que dificilmente pode ser reconhecida por nossos irmãos ortodoxos. Outrora a Igreja Romana exercia raramente o seu primado sobre o conjunto das Igrejas Orientais e sobre aqueles que desde tempos imemoriais, enquanto Igrejas maiores, apostólicas, patriarcais, exerciam um primado sobre as Igrejas vizinhas e que hoje ainda fundamentam a estrutura eclesial. Esta última consideração é da maior importância e indispensável a todo diálogo com as Igrejas Orientais separadas de nós.

Sob a sua forma moderna, insinuada em nosso esquema, a doutrina do primado, que se encontra muito espalhada em vários parágrafos, é proposta de maneira muito unilateral, tornando-se quase inaceitável pelos Ortodoxos. Ela oferece, com efeito, um aspecto teológico elaborado somente pelo Ocidente, sem o concurso da Tradição Oriental.

A Tradição Oriental, junto à Tradição Ocidental, teria impedido que a doutrina do primado tomasse proporções tão inadequadas perante o episcopado. Isso deve ser afirmado, sobretudo hoje, com o desenvolvimento do ecumenismo, no momento em que os esforços dos católicos pela unidade são tomados em consideração por todos.

Três observações ilustrarão as minhas afirmações:

1) Todas as vezes que no Esquema se trata da autoridade dos bispos, esta é subordinada à autoridade do Pontífice Romano. Esta afirmação, repetida em excesso, acaba por aborrecer e levar a crer que a autoridade do Pontífice Romano é uma limitação da autoridade dos bispos.

Ora, o primado de Pedro em seus sucessores é um dom inestimável dado às Igrejas e não se deve restringi-lo a um jugo imposto pela força. A autoridade do Pontífice Romano não foi dada para restringir a autoridade dos bispos, mas para defendê-la e sustentá-la, assim como numa família a autoridade do pai confirma e sustenta a autoridade da mãe, mas não diminui de modo algum, se bem que ela se estenda à mãe e aos filhos.
É preciso contentar-se com afirmar uma vez por todas a dependência do corpo episcopal relativamente ao Papa, sem repetir indefinitivamente essa afirmação. Sigamos neste ponto a advertência do próprio Pedro: "Sede sóbrios e vigiai". Por que não se referir cada vez a Cristo, logicamente o soberano Pastor, donde provém todo poder e o próprio sacerdócio, tanto do Pontífice Romano como dos outros Bispos?

Por outro lado, os autores do esquema, obcecados pelo Primado, parecem ter negligenciado o ponto essencial, a saber, a doutrina do Cristo-sacerdote e a doutrina dos sacramentos por ele instituídos, sobretudo a Eucaristia, laço de unidade no interior de cada Igreja e na Igreja Universal.

2)Fala-se muitas vezes do poder episcopal e colegial, mas sob a dependência do Pontífice Romano. Não há outra verdade a afirmar e a sublimar ainda mais no Esquema, a fim de obter o equilíbrio, a saber que a autoridade do Pontífice Romano não é absoluta, isolada, independente da existência do Colégio dos Bispos? Não mais que a autoridade de Pedro, a do Pontífice Romano não pode ser compreendida e explicada senão em relação ao Colégio ao qual ele preside e que assume verdadeira e eficazmente, sob seu primado, a responsabilidade por toda Igreja. Esta mútua interdependência entre a Cabeça e o Colégio não é somente conforme a realidade, mas aparece necessária a todo diálogo com a Ortodoxia.

3)Que me seja permitido chamar a atenção para o §16, p. 29, linha 4, no qual se opõe “o sucessor de Pedro, o Pontífice Romano, e os bispos sucessores dos Apóstolos”. O Pontífice Romano, sucessor de Pedro enquanto Pedro, é também sucessor dos Apóstolos enquanto Bispo, da mesma forma que os outros bispos, sucessores dos Apóstolos, são de algum modo sucessores de Pedro, enquanto Pedro é Apóstolo. Proponho a seguinte correção: “O Pontífice Romano, sucessor de Pedro como chefe, e os outros Bispos sucessores dos Apóstolos”. A tendência várias vezes já demonstrada no Concílio de separar o Pontífice Romano do Colégio dos Bispos é mais prejudicial que útil. Assim fazendo, permitimos que se anulo o dom maior, a maior graça do Pontífice Romano, a graça do Episcopado. A maior graça, com efeito, que Pedro recebeu de Cristo foi sua escolha como Apóstolo e como membro do Colégio Apostólico, no qual o encargo de “confirmar os outros” não é algo de particular que se acrescenta a sua iminente vocação apostólica propriamente dita.

O sucessor de Pedro, o Pontífice Romano, é antes de tudo um Bispo. Esta graça do episcopado continua para ele mesmo após sua eleição para o Supremo Pontificado, a mais importante de toda a sua vida. Pelo fato de ele ter o encargo de confirmar todos os seus irmãos, o Pontífice Romano não cessa de fazer parte do Colégio apostólico, ela não se torna bispo universal no sentido de que se substituiria aos outros, assim como muito bem o declaram os Bispos alemães – a Bismarck em 1875, numa carta que o Papa Pio IX aprovou solenemente e que poderia ser lembrada pelo nosso Esquema. Segundo a tradição, o Papa não é direitamente eleito pelo Conclave ao Pontificado Romano, mas para a Sé Romana, que foi a de Pedro. Eleito para a Sé de Pedro, ele sucede, em razão disso, a Pedro em seu Primado. É por isso que os eleitores do Pontificado Romano, qualquer que seja a nação a que pertençam, são titulares da cidade de Roma, ou das Sés suburbicárias. Nós somos muito reconhecidos a nosso Papa Paulo VI, a exemplo de seu predecessor de Santa Memória João XXIII, que solenemente declarou no início desta seção que esta Sé Romana era sua, sua própria sede. “O Colégio dos Cardeais, disse ele, quis eleger-me para a Sé Episcopal de Roma e em consequência ao Supremo Pontificado da Igreja Universal”. Antigamente, esta verdade tinha sido esquecida pelo espírito dos fiéis.

Enfim, antes de concluir, no que concerne à colegialidade episcopal, sobre a qual os Padres muito discutiram aqui, eu me espanto que tantos duvidem ainda, enquanto isso é evidente pela vida da Igreja dos primeiro séculos, de que a colegialidade tenha estado em virgo e continue ainda hoje em vigo nas Igrejas Orientais. No regime patriarcal, o sínodo ocupa um lugar muito importante. Nenhuma decisão importante é tomada sem o Sínodo ou fora dele. Os Metropolitas, depois os Patriarcas, consciente da obrigação que eles tinham de salvaguardar a unidade entre as Igrejas, tinham o costume de trocar cartas sinodais, para chegar juntos a soluções comuns. Fazendo assim, eles estavam persuadidos de continuar a Tradição apostólica.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Eclesiologia Católica Oriental - Cinco Princípios - Parte II

Cinco declarações de princípio

O Concílio Vaticano I definiu o dogma da primazia do Pontífice Romano. Esta definição deu origem aqui a abusivas interpretações que o desconfiguram, fazendo da primazia, que é um carisma garantido por Cristo a sua Igreja, um obstáculo à unidade Cristã. Agora, estamos convictos que o obstáculo para a união não é a doutrina da primazia em si, claramente prescrita nas Santas Escrituras e na tradição da Igreja. Em vez disso, o obstáculo reside nas suas interpretações excessivas e, mais ainda, em seu concreto exercício, no qual, aos elementos autenticamente divinos e à evolução eclesial legítima, foram acrescentados, mais ou menos conscientemente, empréstimos de modalidades no exercício de uma autoridade puramente humana.

O Concílio Vaticano II, de acordo com as belas palavras do Papa Paulo Vi na abertura do Concílio, propões preparar passos de união. É por isso que, parece-nos, o concílio não deve se contentar em repetir sobre estes pontos das palavras do Concílio Vaticano I, que já foi discutido, mas procurar clarificá-lo e compreende-lo, na luz da divina instituição e imprescritível direitos do episcopado.

Neste sentido, o novo texto do esquema “De Ecclesia” mostra-nos um notável progresso com respeito tanto com relação à formulação anterior como também às fórmulas rotineiras dos manuais teológicos. O fato é que, do ponto de vista ecumênico, vários textos devem ainda ser aperfeiçoados para trazer mais claramente os princípios que asseguram o exercício imparcial da primazia romana, desejada pelo divino Fundador da Igreja.

Deixando os detalhes de menor importância para as notas escritas que já foram transmitidas ao 
secretariado, parece-nos que o texto do esquema do conselho deve enfatizar os seguintes princípios:

1) Deve estar claro para todos nós que a única cabeça da Igreja, o único chefe do Corpo de Cristo que é a Igreja, é Nosso Senhor Jesus Cristo e só ele. O Romano Pontífice é a cabeça do Colégio de Bispos, assim como Pedro foi o cabeça do Colégio dos Apóstolos. O sucessor não tem mais poder do que aquele que ele sucede. Por esta razão não é apropriado dizer do Romano Pontífice, como se diz de Cristo -- do mesmo modo, sem distinção -- que ele é o Chefe da Igreja, caput Ecclesiae. 

2) A fundação da Igreja não é feita sobre Pedro sozinho, mas em todos os apóstolos, bem como, como está provado por uma série de textos no Novo Testamento. Esta verdade de nenhum modo se opõe a Primazia de Pedro e seus sucessores, mas verte uma nova luz sobre ela. Pedro é um dos Apóstolos, e ao mesmo tempo chefe do Colégio dos Apóstolos. Similarmente, o Romano Pontífice é um membro do Colégio dos Bispos e ao mesmo tempo chefe do Colégio. A cabeça está junta de todo corpo, e não separado. 

3)Deve estar claro que o poder do Romano Pontífice sobre toda a Igreja não tira o poder do Colégio dos Bispos como um todo sobre a Igreja - um Colégio que sempre incluí o Papa como seu primaz - o poder do Papa não substitui o poder dos bispo na sua diocese. Cada ato canônico, dentro dos limites da diocese, vem do bispo da diocese e dele sozinho.

Além disso, prejudicaria seriamente a doutrina da primazia romana e toda possibilidade de diálogo com a Igreja Ortodoxa se este primado fosse apresentado de tal modo que a própria existência da Igreja Oriental fosse inexplicável. De fato, este último deve sua vida sacramental, litúrgica, teológica e disciplinar a uma Tradição apostólica viva em que uma intervenção da Sé Romana raramente aparece.

4)Deve-se ressaltar que o poder universal do Pontífice Romano, total como ele é, e permanecendo dentro do seu próprio mandato, é lhe dado essencialmente na medida em que ele é o chefe de toda a hierarquia e precisamente com o propósito de cumprir este serviço primacial. São Mateus "Você é Pedro" (16:18) não deve ser separado de São Lucas "confirmar os teus irmãos" (22:32). Além disso, esse poder é de natureza pastoral e estritamente pessoal. É de natureza pastoral no sentido de que não é uma prerrogativa dirigida a comandar por ordem de comando. É um ministério, um serviço, uma diakonia, um pastorado, como Sua Santidade o Papa Paulo VI enfatizou claramente. Este poder é de natureza pessoal e não pode, na medida em que o seja, ser delegado de qualquer forma.

5)Por fim, deve estar claro que nem a nomeação dos bispos nem sua missão canônica é reservada, por direito divino, apenas ao pontífice romano. O que foi uma circunstância contingente do Ocidente cristão não deve ser transferido para o nível universal de toda a Igreja e para o nível da doutrina.

Quando o primado do pontífice romano está livre do exagero da doutrina e do exercício, não só deixa de ser o principal obstáculo à união dos cristãos, mas torna-se o principal dinamismo que requer e mantém esta união. É absolutamente indispensável como o vínculo da unidade para a Igreja. Os cristãos nunca podem agradecer ao Senhor Jesus o suficiente por este ministério que Ele estabeleceu em sua Igreja.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Eclesiologia Católica Oriental: Primado e Infalibilidade - Parte I


Os textos abaixo são intervenções dadas pelo Patriarca Máximo IV Sayegh dos Greco-Melquitas durante o Concílio Vaticano. Eles fazem parte do entendimento dos Católicos Orientais sobre a doutrina da Primazia e a Infalibilidade.
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Em vez de dizer que o Colégio Episcopal só tem autoridade (trata-se, bem entendido, de autoridade universal) quando unido ao Pontífice Romano, preferimos dizer que o Colégio Episcopal, de que o Papa faz parte como Presidente, só constitui um Colégio se unido com o Pontífice Romano, que é o seu Presidente. É uma diferença de perspectiva não desprovida de importância. Há uma tendência no Ocidente de situar o Papa não só à frente do Colégio Episcopal, o que é correto, mas fora dele, o que é falso. Da mesma forma, há uma tendência de considerar o Papa fora do Concílio Ecumênico. Este estudaria, discutiria, proporia e o Papa confirmaria e sancionaria. Mais de uma prova poderia ser carreada para demonstrar a existência dessa mentalidade, que não nos parece adequada à realidade.

Natureza do primado Romano


O esquema parece afirmar que o Pontífice Romano tem por ele mesmo um poder pleno e universal sobre toda a Igreja. Desejar-se-ia precisar que este poder universal do Papa só lhe é dado enquanto chefe da Hierarquia e não em vista de cumprir este ministério primacial. Importa, com efeito, mostrar que este poder universal do Papa é a consequência de um ministério de chefe da Igreja, o que não é um privilégio sem fundamento nem utilidade pública.

Em segundo lugar, desejar-se-ia precisar que este poder universal do Papa é essencialmente um poder pastoral e pessoal. É pastoral no sentido de que não é uma prerrogativa que lhe permite mandar pelo prazer de mandar ou dominar por dominar o resto da Igreja. O poder na Igreja é uma “diakonia”, um ministério, um pastorado. Este é o motivo por que o Oriente não gosta do termo jurisdição, tão caro aos canonistas do Ocidente, pois ele transpira uma concepção de poder puramente humana, feita de superioridade e domínio sobre os outros. Além disso, este poder universal do Papa é estritamente pessoal. O Papa pode certamente fazer-se ajudar por toda sorte de colaboradores, mas ninguém compartilhar com ele o seu primado na Igreja. Esta observação tem numerosas consequências práticas. No catolicismo de hoje, todos aqueles que, de perto ou de longe, estão a serviço da administração pontifícia reclamam um primado sobre os outros Bispos do mundo e mesmo sobre os titulares de outras sés apostólicas da cristandade... Convém precisar com muita clareza que o primado e a infalibilidade do Papa são estritamente pessoais.

Para designar a autoridade universal do Colégio Episcopal, unido naturalmente a seu Chefe, o Pontífice Romano, o Esquema emprega uma perífrase tortuosa para anular essa ideia. Ele diz que o Colégio Episcopal “indivisum subjectum plenae et supremae potestatis in universam Ecclesiam creditur”. Por que este creditur e por que subjectum potestatis, que se poderia interpretar a rigor subjectum delegatum potestatis, segundo a doutrina tão cara a certo canonista que pretendem que nenhum poder exista na Igreja se não provier do Papa? A verdade é que o Colégio Apostólico tem verdadeiramente um poder universal na Igreja e este poder lhe provém de Cristo diretamente. É um poder nativo, original, divino, ordinário, inalienável.

O que a colegialidade episcopal implica


 Falando do poder colegial do Bispos, isto é, de seu poder enquanto membro do Colégio Episcopal, o esquema o reduz a uma simples solicitude universal, muito útil a toda a Igreja. É muito pouco. É verdade que o poder colegial de cada Bispo sobre o conjunto da Igreja não é o mesmo que o seu poder direto sobre a sua diocese. Mas também não é uma simples solicitude pelo bemgeral da Igreja, 

De fato, as responsabilidades que o Esquema atribui nas linhas seguintes ao Colégio Episcopal ultrapassam a simples solicitude e constituem um verdadeiro poder.

Colegialidade e missão


A obrar da evangelização do mundo não é, de si, uma das competências exclusivas do Bispo de Roma. É, antes, uma missão dada por Cristo a todos os Apóstolos e,depois deles, a todos os Bispos da Igreja, e, de fato, a história eclesiástica nos mostra que muitos outros Bispos da Cristandade ocupam-se em evangelizar o mundo enviando missionários e mantendo-os, fundando Igrejas novas e organizando a hierarquia em país de missão. Mas, de fato, hoje, para evitar uma inútil dispersão de forças e melhor organizar as obras de evangelização, a alta direção das missões foi reservada ao papa.

De onde vem a missão canônica do Bispo?


Certa escola de canonistas do Ocidente afirma, como já o vimos, que nenhum bispo recebe missão sobre a sua diocesa senão por intervenção direta ou indireta do Papa. Esta opinião teve lugar no antigo Esquema. O novo Esquema corrigiu esta asserção absolutamente inaceitável. Nada na Escritura ou na tradição prova, com efeito, que a missão canônica dos Bispos para a sua dioce lhes vem exclusivamente do sucessor de Pedro. Os canonistas em questão simplesmente transplantaram para o plano universal de toda a Igreja e para o plano da doutrina o que era de fato contingente do Patriarcado do Ocidente. No Ocidente, depois de certo tempo, a missão canônica e mesmo a eleição dos Bispos foram reservadas de fato ao Pontífice Romano. Mas não foi sempre assim na Igreja, desde a origem e em toda a parte.

Diante desta consideração que fizemos valer energicamente na Comissão Central, o novo Esquema introduziu nuances em suas asserções e reconheceu que a missão canônica podia ser dada em virtude das leis ou dos costumes legítimos, não revogados pela autoridade suprema (que é não somente a do Papa, lembremos de passagem, mas também a dos Concílio Ecumênicos). Esta missão canônica pode ser dada diretamente pelo Pontífice Romano, seja como Patriarca do Ocidente, seja como sucessor de Pedro. Mas não é pelo mesmo título que o Papa nomeia os Bispos do Ocidente e pode ser chamado, em certos casos, a nomear os Bispos do Oriente. No primeiro caso, ele age como Patriarca do Ocidente auxiliado ou não pelo Sínodo (ou melhor, pelo Consistório ou pela propaganda). No segunda caso, ele age como chefe da Igreja, quando a bem da Igreja Universal exige, de um modo excepcional, a sua intervenção é direta, por sobre as instituições próprias do Oriente. Em segunda lugar, é verdade que o Papa pode depor um Bispo por motivos muito graves. Mas a redação do Esquema arrisca-se a equívocos, como se nenhum Bispo pudesse ter missão em sua diocese se não fosse aceito positivamente pelo Papa. Tal modo de apresentar, baseado sobre as pseudodecretais, esteve na origem, como se sabe, do conflito entre o Papa Nicolau I e o Patriarca Fócio. Em consequência, é preciso emendar o texto do cânon 392 § 2 do Motu Proprio “Cleri Sanctitati”.

Fundamento da infalibilidade pontifícia.


O Papa é infalível apenas porque ele é o Chefe do Colégio Apostólico e porta-voz da infalibilidade deste Colégio e de toda Igreja. Quando assim esclarecido, a infalibilidade torna-se compreensível. Não é mais do que um privilégio honorário. O Papa não proclama dogmas infalíveis sem razão; sem fundação, sem referência das Escrituras, da Tradição, e da Igreja, desnecessariamente, apenas para mostrar que é papa. A infalibilidade é um carisma dado a ele pelo bem-estar geral e proveniente de seu ministério. Essas clarificações são absolutamente essenciais e indispénsáveis para qualquer um que queira trabalhar na União das Igrejas, pois elas não foram suficientemente tomadas em consideração até agora.
O texto do Esquema reproduz literalmente a definição da infalibilidade dada pelo Vaticano I. Mas esta definição deu lugar, de fato, a más interpretações e a exageros lamentáveis. É preciso que o Vaticano II esclareça a noção e a torne mais clara. Assim, o “ex sese” (por si mesmo) torna-se mais preciso se se dizer: “ex officio suo” (pelo seu ofício); o “non ex consensu ecclesiae” (não por consenso da igreja) fica mais preciso se se dizer: “non ex delegatione, Nec ex canônica, etsi implícita, collegiali confirmatione” (Não pela delegação, nem o clero, ainda que implicitamente, uma confirmação colegial).

Em segundo lugar, é verdade que as definições do Papa são irreformáveis e sem apelo, mas pensemos que é necessário acrescentar um matiz, a saber, que as definições do Papa não podem contradizer a Fé da Igreja e do Colégio Episcopal.

Tais esclarecimento são geralmente admitidos hoje em dia. Convém inseri-los, a fim de que o Vaticano II traga nova luz à doutrina da infalibilidade pontifícia.

Primado e Soberania


Preferimos não introduzir na Igreja a noção de soberania, do direito público internacional. Se o poder do Papa fosse um poder soberano no sentido profano, seguir-se-ia logicamente que todos os outros poderes da Igrejam seriam poderes delegados. Ora, como vimos, tal não ocorre. O poder do Papa é tradicionalmente qualificado na Igreja pela palavra Primado. É melhor ficar com ela e evitar empréstimos ao direito profano. É preciso também não esquecer que o Papa não é a única autoridade máxima da Igreja. O mesmo poder cabe ao Concílio Ecumênico, quer dizer, ao Colégio Episcopal, o Papa à sua frente. Por outro lado, mesmo o Código de Direito Canônico Latino compreende sob a expressão “De suprema potestate in Ecclesia” tanto o Papa como o Concílio Ecumênico.

O papa, guardião da Colegialidade Episcopal


O episcopado que sucede ao Colégio Apostólico não é, antes de tudo, a soma das dioceses formando cada uma um todo relativamente fechado em torno de seu bispo. Ele é, antes de tudo,  o Colégio Apostólico, tendo em comum a responsabilidade da humanidade inteira a ser assimilada a Cristo.

E responsabilidade não é de dominação, mas estritamente de serviço. Se, para exprimir esta responsabilidade, é necessário fazer uso do conceito de autoridade, ela não se exprime satisfatoriamente em termo muito acentuados de “jurisdição”. Este é o motivo pelo qual, parece-nos, as expressões jurídicas “de direito divino”, “de direito eclesiástico” deveriam muitas vezes ser substituídas elas expressões: “realidade evangélica”, “realidade apostólica”, “ordenado no Espírito Santo”.

É, a fim de melhor servir o rebanho que ele é dividido em grupos, seja "patriarcal", "metropolitana", ou "diocesana", sem prejuízo para o primário responsabilidades retidos por todos e cada um dos bispos em relação à Igreja como um todo.
Em tudo isso, e até este ponto, o papa é igual a todos os outros bispos. Ele passa, contudo, a uma segunda realidade, para precisamente secundar o episcopado uno sua missão. Pois o episcopado tem a necessidade de conservar a unidade. O papa é reconhecido como responsável para conservar a unidade coletiva. Esta unidade não pode ser reduzida em ele mesmo sozinho ou em certo carisma que ele possua. Pelo contrário, ele deve adaptar-se a "catolicidade", a fim de servi-lo com a sua variedade de dinamismo, sabendo que ele é, como tal, não pessoalmente co-extensivo com a Igreja e que a Igreja não é coextensiva com ele ... pois isto poderia  reduzir novamente a Igreja ao Papa, o "catolicismo", à sua pessoa ... na verdade, como resultado da história até agora, tornando-se co-extensivo com latinismo.

Assim como os bispos têm poderes sobre o rebanho, a fim de servir a Igreja – os poderes vem impregnados com humildade-assim também o Papa, a fim de servir o episcopado em sua missão, tem poderes imbuídos de humildade e de encargos pela finalidade de suas funções, mas que não cria o episcopado, da qual ele é o servo do episcopado, mas continua a ser um membro. Seus irmãos bispos, na situação em que a vida os colocou, tem a mesma autoridade que ele na parte imediata de suas responsabilidades atuais: diocese, primazia e Patriarcado.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Mensagem de Natal de Sua Beatitude, o Patriarca Sviatoslav Shevchuk


Mensagem de Sua Beatitude, o Patriarca Sviatoslav Shevchuk, para a comemoração da Natividade segundo a carne de Nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo.

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Cristo nasceu! Glorifica-o!

Hoje nossos corações estão repletos com a graciosa alegria natalina. O Deus eterno torna-se homem, de modo que o homem pode estar unido e reconciliar-se com Ele para sempre. O Filho de Deus torna-se filho de uma Virgem de Nazaré e permite ser carregado em braços humanos. Para nós, Cristãos, este grande e inefável Mistério da encarnação do Filho de Deus é a chave para conhecer a natureza de Deus e entender a história da salvação. A Natividade de Cristo mostra-nos quem Deus é e quem devemos ser em relação a Ele e o próximo.

Olhando para o Deus pré-eterno nascido em uma caverna estável simples, a Igreja canta: “Do seio do Pai Tu saíste, Ó Amante da Humanidade, e na sua inefável bondade aceitou a pobreza sobrenatural. Tu, Ó Senhor, planejado para nascer em uma gruta, e, como uma criança, Tu, o Criador e Senhor, foi amamentado nos seios. Portanto, conduzidos por uma estrela, os Magos trazem-Lhe presentes, como o Senhor da criação, e os pastores e anjos se maravilham e clamam: Glória a Deus nas alturas, Quem vem agora na forma de um ser humano, para Nascer na terra " (Domingo anterior a natividade, Matinas).


O Filho Unigênito de Deus, “ Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”, afim de realizar a vontade de Seu Pai, escolheu ser concebido e ser carregado por nove meses no útero de uma mãe, e nascer em toda fragilidade e fraqueza da natureza humana, “assumindo a condição de um escravo e assemelhando-se aos homens” (Fl 2:7). Ele não tornou-se meramente um ser humano, mas assumiu toda suscetibilidade e desamparo, e tendo tornado-se criança, experimentou todas as dificuldades e perigos associados com a vida humana. Em Cristo Jesus, Deus tomou uma vez por todas a plenitude de tudo o que consideramos "ser humano" - a medida plena da existência humana com toda a sua grandeza, mas também todo o seu drama.

Baseado na experiência divino-humana, o Todo-Poderoso sabe aquilo que dói em mim, porque eu choro ou alegro-me. Ele conhece cada um de nós, porque até o fim do mundo Ele continua a viver com a humanidade e na humanidade. Ele continua a participar em cada sofrimento humano, Ele continua em cada uma de nossas alegrias, Ele continua a morrer em cada morte humana, Ele continua a ser perseguido e desonrado em cada pessoa a quem o mundo atual rejeita e despreza. O Natal é o nascimento de Deus em mim, a encarnação do Filho de Deus na História Humana, na minha vida, não importar quão trivial e complicado isso possa parecer. Assim, minha vida, seja qual for o caso, adquire significado, por isso, o que é pessoalmente meu, torna-se pessoal para Ele!

Hoje Cristo o Senhor nasce na história de nosso povo e de Sua santa Igreja “por nós, homens,
e para a nossa salvação”. Neste momento da história, que experimentamos juntos, Ele “é possível levar a termo a salvação daqueles que por ele vão a Deus, porque vive sempre para interceder”(Hb 7:25). Assim como em Bethlehem, Jesus precisou de Maria e José para trazê-lo ao mundo da humanidade, hoje Ele precisa de nós, Cristãos do Terceiro Milênio, para que, através da nossa fé, possamos trazê-lo ao nosso mundo, à história e à cultura. Ainda mais, devemos trazer Cristo, nascido hoje para nossa salvação, para nossa vida pessoal, família, e vida social. Deus quer entrar lá e ser pessoalmente presente. Ele respeita nosso livre arbítrio e espera-nos a ser aperto a Ele.

Portanto, depende de nós: trazer Cristo em nossas vidas, ou fechar as portas a Ele, como foi o caso dos moradores de Bethlehem. Onde Deus é recebido, lá tudo é trazido a vida e renovado. Aqueles que abrem seu coração a Ele recebem esperança, um novo sentido de sua própria existência, hoje e para o futuro. Já onde ele é rejeitado, tudo morre e está sujeito a decair, ruir, e corromper. Ali permanece sob a autoridade da morte, está sujeito a falsos deuses, violência, e engano, e no final perdem o significado de suas vidas, perdem a esperança no amanhã, assim como tudo morre diante de seus olhos já hoje.

Logo, celebremos a Natividade de Cristo, permitindo o salvador nascer em nosso íntimo. Vamos envolvê-lo no manto de nossa vida pessoal, familiar, e social. Vamos envolvê-Lo com nossa esperança, assim como os sábios que seguiram a estrela de Natal. Que nossa vida cotidiana seja iluminada pelo terno amor, que o Divino Bebê derrama sobre nós.

Em nossa vida pessoal, façamos o bem e evitemos pecar. Façamos um esforço, para que nossos pensamentos e escolhas sejam repletas de Deus. Vivamos de tal modo que nosso próximo possa ver que somos Filhos de Deus, seguindo Sua Palavra e Seus mandamentos. Em temos difícieis, não esquecemos que o Senhor Nosso Deus ama-nos com seu amor ilimitado, que é tão grande quanto nossos erros e quedas, é tão forte quanto nossos pecados e ofensas. Nosso Criador deseja que sejamos capazes de trazer o Seu amor na vida dos outros – e trazer para nossa vida em nossos relacionamentos e ações. O Natal não é apenas um evento histórico “nos dias de Herodes, Rei na Judeia” (Lc 1:5). O Natal é um evento espiritual da presença incessante de Deus, encarnada em cada momento e em cada lugar, cumprido por mim e para mim.

Na vida de nossas famílias, em tudo, procuremos viver o amor e a harmonia. Pais, lembrem-se com mais frequência que as crianças criam a imagem de Deus em seu comportamento, seu amor pelo outro, seu sacrifício, generosidade, e alegria da vida. Ensine-os a orar com sinceridade antes de tudo com seu próprio exemplo. Lembrem-se em tudo que seus filhos tem sido confiado a vocês pelo próprio Criador e Pai Celestial, de modo que você possam criá-los no amor por Ele, e para a Sua glória. Especialmente nestes dia festivo, dê-lhes maravilhosas memórias de Natal, para que possam experimentar a alegria da vida cristã, que permite superar todas as dificuldades e adversidades.

Em nossa vida social, especialmente em meio as atuais mudanças econômicas e políticas, e conflitos militares, lembremo-nos que Deus está conosco! Não estamos sozinhos no sofrimento, na dor, e no sangue desta guerra. Em Seu nascimento Nosso Senhor também é encarnado hoje, neste momento histórico em que somos chamados a viver e morrer, constuir e restaurar, defender nosso país dos seus inimigos, e curar as feridas do passado e do presente. No Dia do Natal, é para nós que S. Paulo fala, chamando-nos a santidade de vida:  “Que Cristo habete pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo o  conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus.” (Ef 3: 17-18).

Como Cristãos, somos chamados hoje a ser com os pastores no Evangelho, que primeiro receberam a boa nova do nascimento do Salvador, para levá-lo para o mundo e compartilhá-lo com os nossos vizinhos. No cumprimento dessa missão de natal, vamos encher nossas casas, igreja e toda nossa terra com o canto antigo canto Koliada-carol[1]. Hoje deixe o nosso koliada ressoar em toda a Ucrânia e onde quer que haja um coração ucraniano! Deixe a alegria da festa de hoje encher-nos de esperança de vitória, não a nossa, mas de Cristo, que só pode reunir, que hoje parece desesperadamente dividido, tanto na Ucrânia e em todo o mundo.

Levemos o recém-nascido Salvador em nosso canto natalino para todos que estão tristes ou solitários. Compartilhemos nossa Santa Ceia e a alegria com aqueles que têm sede e fome por justiça e atenção humana. Vamos visitar aqueles que estão aprisionados, que estão longe de casa ou viajando. Vamos levar a luz celestial do Natal para os feridos e sofredores. Lembremo-nos em oração por aqueles que estão cativo, aqueles que sofrem abuso e brandam a Deus por uma luz de esperança enquanto estão sob fogo na chamada linha de demarcação, nos territórios ocupados da Ucrânia oriental e da Criméia. Sejamos unidos em nossos pensamentos e orações com nossos soldados que estão corajosamente defendendo nosso Natal. Não esqueçamos daqueles que ansiosamente esperam o retorno seguro deles.


Queridos Irmãos e Irmãs, desde os mais jovens aos mais velhos, quer na Ucrânia quer no estrangeiro, do meu sincero coração, desejo a cada um de vocês um saboroso [2], um Natal cheio de alegria e um feliz e abençoado Ano Novo!

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Tradição Eremítica Maronita: Um reavivamento contemporâneo

Não é fácil escrever sobre a vida de pessoas que escolheram dignamente o silêncio, e mencionar-lhes quando eles não querem seus nomes na posteridade, tendo decido se manterem desconhecidos. Apagado da memória das pessoas.  Para conhecer os eremitas Maronitas requer seguir um longo procedimento: informar ao Secretariado da Ordem Maronita Libanesa, receber a permissão do superior do monastério que o eremita pertence, e finalmente obter o consenso necessário do eremita que escolheu o silêncio para não perturbar sua busca de humildade.

Neste estudo, pretendemos considerar a experiência eremítica vivida dentro da Igreja Maronita. Há quatro eremitas contemporâneos da Igreja Maronita, três monges e uma monja. Há um programa para introduzir leigos à tradição eremítica maronita, através da organização “Dias eremíticos” organizado e liderado por Irmãs Antonitas. 


Reflexões sobre a espiritualidade eremítica na Igreja Maronita é uma questão muito delicada e difícil, especialmente pela falta de textos escritos e outras informações que poderiam facilitar o estudo desta escola de espiritualidade enraizada na história e revelada através da experiência real da Igreja Maronita. Porém, a vida monástica e eremítica da Igreja Maronita tem origem em São Maron, um santo anacoreta que viveu no século quarto e quinto, em uma montanha situada, provavelmente, na região de Apamea na Síria.

Ícone de São Maron, o Eremita
São Maron viveu ao ar livre próximo à um templo pagão que ele converteu em Igreja, uma vida de penitência e oração.Esse estilo de vida atraiu um grupo para se tornar seus discípulos. Reunidos ao redor dele, eles formaram o núcleo da Igreja Maronita, suas vidas centraram-se no mosteiro dedicado em memória de seu mestre, o Mosteiro de São Maron situado na vizinhança de Apamea.

O fato que ter tido essas origem condicionou e guiou a vida da comunidade maronita. Um fato único na história Cristã é que a comunidade monástica tornou-se o principal organizador de uma Igreja, dando vida ao Patriarcado que foi concedido por tradição o prestigioso título de Antioquia. Está dupla realidade histórica de São Maron e do agrupamento monástico de seus discípulos determina a espiritualidade eremítica da Igreja Maronita. Esta espiritualidade e modo de vida caracterizam a Igreja Maronita e seus féis que apreciam a vida ascética de seus fundadores.

A vida eremítica na contemporaneidade da Igreja Maronita não pode acontecer sem uma análise precisa de suas origens e de sua evolução histórica. Isso revela uma sutil mistura de tradição e adaptação. A vida eremítica na Igreja Maronita é comparável à uma célula no corpo humano; ela constituí a essência de toda sua vida, de sua espiritualidade e reflete sua identidade. Como a identidade está envolvida na história, logo a vida eremítica representa hoje em dia não apenas uma identidade contemporânea da Igreja Maronita, mas também a consequência da transformação experimentada ao longo do tempo: confusão e ambivalência. Em outras palavras, a análise da evolução da vida eremítica leva justamente em consideração o itinerário de uma igreja e de um povo, os Maronitas. 


Espiritualidade Maronita 


A Igreja Maronita pertence a família das Igrejas Antioquinas Siríacas, e tem moldado sua própria espiritualidade com a siríaca. A espiritualidade dessas Igrejas Siríacas é enraizada, por um lado, à espera do retorno de Cristo, descrito por Michel Mayek como um ‘estado purgatorial’ e, por outro lado, na meditação das Escrituras que é base para todas as tradições litúrgicas.


Está espiritualidade é baseada no misticismo pneumático, que foi desenvolvido em três estágios, seguindo três níveis: corporal, psicológico e pneumático. A espiritualidade Maronita apesar de ser afiliada à espiritualidade Siríaca e sucedê-la, distingui-se através da especificidade de alguns de seus elementos adquirido  ao longo da história. Através de seu apego à terra, está espiritualidade revela-se profundamente humana. Seu entendimento de igreja é ecumenicamente aberto. A espiritualidade do sofrimento, martírio, crucificação e ressurreição de Cristo, uma espiritualidade de espera pela Parusía. Finalmente, é uma espiritualidade que, apesar de dar nascimento a uma igreja, tem mantido fiel ao seu caráter monástico.

Mosteiro de Mar  Antonios Qozhaya
A ligação dos Maronitas ao Líbano mostra sua ligação ao caráter sagrado da terra. A acomodação no Norte do Líbano tem tornado-se uma vocação. Fazendo um refúgio fora dessas montanhas e se estabelecendo no fundo e íngreme Vale do Qadisha, os Maronitas foram capazes de conservar o que eles receberam e torná-lo produtivo. Aqui reside sua originalidade; aqui poderia ser o testemunho que eles devem dar no coro ecumênico.  


O Líbano tem o caráter de uma terra prometida que não oferece nada aos Maronitas senão cumes, deserto e vales selvagens, um país que está incessantemente contestado e periodicamente abandonado por causa de um novo êxodo. Seria capaz, como S. Maron quando transformou um templo pagão em uma montanha próximo de Cyrrhus, transformar lugares proeminentes no Líbano de mitologia fenícia em oratório e ermitas? O Sagrado relacionamento formado entre o Líbano e os Maronitas transformarão a terra de refúgio em uma Sé Patriarcal da Igreja Católica. A partir de então, o patriarca tem tornado-se símbolo de unidade, uma vez que todos os grupos Maronitas da diáspora reivindicam sua autoridade eclesial. Michel Hayek notou corretamente que ‘os Maronitas trabalharam, construíram, plantaram como celebramos a liturgia: tudo isto tinha um sabor sacramental, um gosto litúrgico: a videira e o trigo para o pão e o vinho da Eucaristia, a oliveira para refinar o óleo dos santos, a amoreira para tecer pano de altar e vestidos de casamento. Tudo é sinal do grande além’.1


A espiritualidade Maronita tem um caráter ecumênico, um universalismo espiritual decorrente de seu pertencimento à Igreja Católica (Universal). O que distingue a Igreja Maronita das demais Igrejas Siríacas é sua união com a Sé de Roma. A Igreja Maronita é também a única no Cristianismo Oriental que não tem uma origem Ortodoxa – todos os Maronitas estão em comunhão com Roma. Seu universalismo também tem sido manifestado através de seu constante diálogo com o mundo Árabe-muçulmano.
 

A cruz está no centro da Espiritualidade Maronita. É fundida com a pessoa de Jesus Cristo que morreu e ressuscitou dos mortos. É como ele: poderoso, vitorioso, glorioso, a fonte da luz, provedor da vida e fonte de imortalidade. Esta visão do Cristo Crucificado vem como uma grande consolação aos Maronitas, pois permite entender e internalizar as perseguições que ele tem suportado e que eles consideram como sofrimento unido aqueles de Cristo na Cruz, encontrando nisto toda sua esperança para a glória e a vitória. É a própria Cruz que lhes permite dar um sentido ao seu sofrimento,
transformando sua fraqueza em força, sua perseguição em vitória e sua morte em Ressurreição.




quinta-feira, 28 de julho de 2016

A respeito da Oração de Jesus, pelo Hieromonge Dionísio

O que é a Oração de Jesus? Qual é sua origem? Como ela é praticada no Oriente cristão? Como praticá-la na vida cotidiana?

Estas são perguntas que fiz ao Hieromoge Dionísio antes que ele saira de viagem. Compartilho aqui sua resposta para o proveito espiritual de todos. Deus nos abençoe.

No Evangelho segundo São João 16,23b ouvimos que o próprio Senhor nos diz:

“Eu lhes asseguro que Meu Pai lhes dará tudo o que pedirem em Meu Nome.”

Pedir em Nome de Cristo, dizer o doce Nome de Jesus. Esse é o resumo, a Oração em nome do Nome de Jesus, chamada oração monologica, ou seja, a oração de uma só palavra, ou a oração feita pela Palavra Verdadeira, a única Palavra do Verbo de Deus feito carne. A Oração de Jesus é a alma de toda oração.

“Até agora vocês não pediram nada em Meu Nome. Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa.” (João 16,24)

O Senhor nos convida à oração, nos chama, nos indica como temos que ser transformados em seres plenos, cheios de uma alegria perfeita, que não procede de nosso ser, de nosso conhecimento, de nossos poderes, mas de Seu poder, por meio do Espírito Santo.

Desde o início da Igreja, os cristãos, fiéis ao mandamento do Senhor, oram ao Pai por meio do Nome do Filho, Jesus. E esta oração inspirada por outras, como a do o cego de nascença ou a do o publicano no templo, tal como aparece no Evangelho, forma uma formulação, que é a mais comum, que consiste em dizer:

“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador.”

É um “Senhor, tende piedade” ampliado e enriquecido. É um “Senhor, tende piedade” que ressoa nas profundezas de nosso coração, que se une à nossa vida natural, transformando-a pela força da graça, que pulsa dentro de nosso coração como o verdadeiro coração da vida divina em nós.
Seremos transformados, e seremos transformados pela ação de Cristo em nós. É o próprio Pai dos Céus que se move no mais profundo de nosso coração e que transforma nosso ser.

“Vem a hora em que não usarei mais esse tipo de linguagem [por meio de símbolos], mas lhes falarei abertamente a respeito de Meu Pai. Nesse dia, vocês pedirão em Meu Nome e não será mais necessário que Eu peça ao Pai em favor de vocês, pois o próprio Pai os ama....” (cf. João 16,25ss)

Orar ao Pai em Nome de Cristo. Este é o chamado do Filho de Deus. Somos adotados no Filho, e a Oração do Nome é a própria respiração de nossa alma. Ela se transforma no centro luminoso onde o Senhor transforma nossa vida em uma vida eterna. Ele vai iluminando cada recanto do nosso ser e vai dispondo-nos à vida do Céu.

A oração de Jesus nos dirige ao coração do Pai, mas também nos coloca no lugar correto, no lugar verdadeiro que temos no Reino de Deus. Somos filhos de Deus por adoção em Jesus Cristo, mas somos caminhantes deste mundo.
Diz o Senhor na carta aos Efésios 6,10ss:

“Fortaleçam-se no Senhor e no Seu forte poder. Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do Diabo, pois a nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais.”

Nossa luta não é contra inimigos de carne e sangue. O próximo não é nosso inimigo. Pode ser nosso adversário, mas com a força do Nome compreendemos que o nosso verdadeiro inimigo é invisível. Nosso verdadeiro inimigo sabota, ataca e procura perverter nosso caminho ao Pai. Ele espreita e procura fazer com que nos percamos.

Conscientes, iluminados pela Palavra do Senhor, oramos com a Oração de Jesus. Mantemos nossas mentes e nossos corações iluminados pela presença do Nome.
Agora, é nosso ser que participa desta luta pelo Reino dos Céus, desta luta para escapar da escuridão.

“Vistam toda a armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis, depois de terem feito tudo. Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade, vestindo a couraça da justiça e tendo os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz. Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno. Usem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.” (Efésios 6,13-17)

Não estamos sozinhos neste caminho até o Pai. Somos admitidos e chamados como filhos da Igreja. Ela, como mãe fiel, nos reveste da verdade, do ensino, nos ilumina, nos nutre, nos serve da mesa abundante do Corpo e Sangue de Cristo. Nos dá o perdão através do Sacramento da Confissão. Nos Divinos Mistérios nos encontramos com Deus feito homem que nos fortalece para a luta contra os inimigos invisíveis, contra nossos verdadeiros inimigos.

“Orem animados pelo Espírito em todas as ocasiões, com toda oração e súplica; tendo isso em mente, estejam atentos e perseverem na oração por todos os irmãos.Orem também por mim, para que, quando eu falar, seja-me dada a mensagem a fim de que, destemidamente, torne conhecido o mistério do evangelho”. (Efésios 6,18s)

Orar uns pelos outros. A Oração de Jesus não é um caminho solitário distante do próximo no qual alguém iria se concentrar equivocadamente em si próprio. A Oração do Nome é mergulhar no coração que ama a todos os homens, que oferece seu amor redentor através da Igreja. É uma oração pessoal e eclesial ao mesmo tempo.

Elevar as súplicas constantemente ao Pai animados pelo Espírito. A Oração de Jesus é uma expressão simplicíssima e central da vida da Santíssima Trindade na qual nós somos inseridos, somos levados, somos incorporados por pura misericórdia de Deus.

Nós, cristãos, buscamos à Jerusalém celeste, queremos voltar ao Pai. E desde o início da Igreja, muitos filhos de Deus têm se afastado das tentações deste mundo para buscar a Face de Deus, não para se afastarem dos irmãos, mas como forma de vigilância para procurar o conhecimento e a comunhão com Deus para os outros irmãos. É muito fácil desviarmo-nos em meio às preocupações deste mundo. E foram precisamente estes eleitos de Deus, estes humildíssimos servos de Deus, os que primeiro se aprofundaram neste mistério da Oração do Nome de Cristo, esta oração que reúne todos os elementos que precisamos para manter-nos caminhando na fé, mas que não esgota a riqueza de toda a Igreja.

A Oração de Jesus é um centro luminoso no qual nossa fé pode crescer unindo-se de coração ao Senhor em todos os momentos de nossa vida. Sem dúvida, os mosteiros são faróis que previnem os fiéis sobre as perigosas escarpas deste mundo, o que devemos evitar, o que temos de procurar. No entanto, não constituem um monopólio da vida espiritual, mas fontes, centros, para que todos os cristãos possam respirar esse Nome, vivendo a presença vivificante do Nome de Deus em nosso coração onde habita por meio da graça.

Praticamos a Oração de Jesus, não nos contentamos em sabê-la. Oramos, a cada momento, com a oração: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador”. Podemos fazê-lo de uma forma mais simples, conforme as necessidades do nosso coração. Mas procuramos assegurar essa Presença a cada instante de nossa vida.

Ele é a luz, a luz do mundo, a luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo e esta luz ilumina o profundo da consciência e do coração, as entranhas, o mais profundo do ser. O mistério de nossa pessoa, onde o olho humano não penetra, e falha o intelecto humano.

Dizemos esta oração em nosso interior e também com a boca. Repetimo-la acompanhados do cordão de oração: do chotki ou komboskini, ou a repetimos com outro objeto que nos possa auxiliar nessa mesma prática. O cerne principal é nomear, buscar, chamar Àquele ante Quem se dobra o joelho de todo ser no Céu, na terra e nos abismos. Essa oração nos transforma nos portadores de Deus que proclamamos a riqueza inesgotável do Nome de Cristo a cada instante e a cada criatura.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Deificação vs Nirvana


(versão brasileira: João Antunes)

Pergunta:
 
O arquimandrita Sofrônio em seu livro “Ver Deus como Ele é”, nos diz o seguinte: 

Nada na natureza é uma repetição absolutamente idêntica. E isto se aplica, sobretudo, à realidade de seres racionais. Todo homem tem um coração formado ‘à parte’ por Deus (cf. Salmo 32/33,15): é o coração de uma determinada pessoa-hipóstase e, como tal, irrepetível. Em sua consumação, cada pessoa receberá certamente para sempre um nome, conhecido somente por Deus e por aquele que o recebe (cf. Ap 2,17). Deste modo, por mais que a vida de todos os salvos seja uma, como um é o reino da Santíssima Trindade (Jo 17,11.21-22), o princípio pessoal de cada um de nós será irredutível ao de outro.

Devemos entender então que, de acordo com a tradição cristã, contrariamente ao pregado pelas diferentes correntes pseudoespirituais sobre a aniquilação da pessoa, os santos, ou seja, aqueles que, pela deificação, tornaram-se deuses pela participação, mas não por natureza, preservam uma singularidade irredutível em seu estado de bem-aventurança?

Resposta do Hieromonge Diego:
Então você me pergunta se o que Sofrônio fala desta condição de pessoa irredutível é verdadeiramente assim na Revelação que Deus fez em nós, contrariamente ao que é proposto pelos pontos de vista pagãos de uma aniquilação do eu. Bem, Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança. Por criado à imagem e semelhança, os Padres [da Igreja] entendem que é criada “pessoa”, imagem, e “semelhança” de acordo com a concepção de Deus. A semelhança, a vida da graça, perdeu-se pelo pecado e a restauramos por Jesus Cristo. A restauração da semelhança por Jesus Cristo, também implica uma restauração da imagem de acordo com o Original, já não com a deformidade que tem a imagem, a pessoa humana, de acordo com o pecado, mas à Vontade benéfica, sempre benéfica, de Deus que nos criou, e nos criou para fazer-nos partícipes de Seu amor. Então, este caminho de retorno, este caminho de volta ao Pai, este retorno ao Pai, saídos do nada, criados no ventre de nossa mãe, toma distintas fases: em primeiro lugar, a adoção [filial] que recebemos em Jesus Cristo no batismo, com isso passamos a ser filhos do Pai, passamos a ser morada do Espírito [Santo], e somos também imagem do Filho, porque o Pai vê em nós o Filho, o Filho por meio do qual Ele fez todas as coisas.

O principal deste caminho nunca muda; a ação de Deus está sempre direcionada para que sejamos mais o somos destinados a ser em Seu plano, Seu plano cheio de sabedoria; saímos do nada e somos levados por Deus e convidados a participar, a cooperar, com a graça, com nossas potências limpas do pecado. Vamos aproximando-nos pelo caminho da santidade, pelo caminho da deificação, a theosis, e o vamos fazendo seguindo os passos do Filho, sendo dóceis ao Espírito, ou seja, caminhamos para o Pai levados justamente pelo Espírito e pela Verdade. O verdadeiro culto, diz o Senhor, deixará de ser neste ou naquele lugar, mas será de um modo em particular, ou seja, em Espírito e em Verdade, e não podemos separar o verdadeiro culto do caminho da deificação; que sejamos transformados em deuses pela participação de nenhum modo nos desvia da centralidade deste culto ao Pai, culto ao Pai a Quem conhecemos em Jesus Cristo por meio do Espírito Santo.

Esta deificação, longe de apagar de nós o que somos, longe de assimilar-nos a algo que nos supera e que nos apaga, muito pelo contrário, faz crescer em nós as sementes da graça, as sementes da Bondade de Deus e Seus dons, e desta mesma forma cresce em nós o que Ele semeou e nos transformamos no que Ele deseja. Alcançamos o nosso próprio bem e podemos dizer que nossa pessoa se deixa ao querer de Deus, que faz cada um diferente, dentro de um plano que supera nossa compreensão e que reconhecemos como excelente, e muito bom, porque todos os caminhos do Senhor distam de nossa vontade, como a Terra do Céu. Nós nunca deixaremos de ser humanos, mas seremos transformados na graça, na medida da Vontade de Deus, e seremos assimilados a uma ordem superior, que não nos apaga, mas muito pelo contrário, as energias divinas que atuam em nós são liberadas a uma escala infinitamente além de nossas possibilidades, como os santos participam deste mistério redentor; esse mistério redentor que desempenham os santos, cada qual distinto, insubstituível, é um também com seu ministério da Trindade de Deus; eles estão divinizados plenamente e, no entanto, intercedem; adoram ao Pai e também são morada evidente do Pai, são uma só coisa.

Quando o homem contemporâneo de alguma forma olha com desejo esses caminhos de aniquilação, de fato está revelando seu estado interior de vazio, de autosaciedade, de autocomplacência, que leva justamente a um desejo de aniquilação. Há uma lei espiritual que faz com que quando nós, do nosso próprio mundo, nos elevamos acima de Deus, as obras que criamos também se voltam contra nós. O Apóstolo São Paulo diz isso falando, inclusive, daqueles que evangelizam: “Alguns constroem com ouro, outros com pedras [preciosas], outros com palha, tudo será provado pelo fogo e alguns salvarão sua vida como quem escapa de um incêndio. Cada um examine com o que constrói” (cf. I Coríntios 3,12ss). Agora, quando o Apóstolo fala de construir, ele não está obviamente falando de alguma construção material, nem sequer está falando diretamente da construção de uma comunidade de pedras viventes, mas está falando em primeiro lugar da construção da vida da fé: como o homem novo é edificado em nós. Na carta aos Colossenses está muito bem descrito qual é o caminho do homem que, levado por seus próprios desejos chega ao precipício de querer o abismo, o abismo que vem a suprimir seu orgulho, o abismo que vem a compensar o enorme peso de querer carregar o mundo em seus ombros, de querer comandar tudo, de querer dominar. Um domínio sem Cristo é um domínio contra Cristo, “aquele que comigo não ajunta, espalha”, diz o Senhor (cf. Mateus 12,30). Da forma como é guiada a civilização hoje, esta é uma civilização construída contra Cristo, procurando inclusive suplantá-lO, sendo este o verdadeiro significado da palavra Anticristo, um falso Cristo. Com falsas forças, procuramos explicitar a fé. Cremos que os avanços na medicina tornam menos necessária a fé e, se não, prestemos atenção em que ponto recorremos a Deus: se quando perdemos a esperança nos médicos ou quando nos é informado o primeiro diagnóstico. Cada um examine com o que constrói, ou seja, com o que coopera para a obra de Deus, se é dócil à vontade de Deus, se é plenamente, ou se é em vão, porque ouve e não cumpre, se é abertamente contrário aos mandamentos de Deus.

Por esta razão, devemos examinar em nosso coração quais coisas estão impedindo que seja edificado em nós o homem novo, aquele que constantemente avança renovando essa imagem de Cristo, esse novo homem em cujo coração habitam riquezas insondáveis que são derramadas em nós. Consideremos o mistério escandaloso da fé, da verdadeira fé tal como o Senhor a revelou, que afirma que Deus se fez homem e que não deixou de sê-lo, e o segundo mistério, mais escandaloso ainda, que nós ao sermos transformados não deixaremos de ser homens e, além disso, no fim dos tempos ressuscitaremos. Nem mesmo os santos no céu completaram seu processo, porque também eles têm que passar pela ressurreição, pela fé sabemos que aqueles que estão no céu ainda não ressuscitaram, exceto nosso Senhor, o primeiro saído dentre os mortos, e Sua Mãe Santíssima. Não há clareza se todos aqueles que foram apontados como ressuscitados nas aparições depois da ressurreição de Cristo — naqueles dias apareceram muitos homens da antiguidade, muitos profetas famosos em Jerusalém e arredores —, não há uma afirmação clara de que seja a ressurreição dos mortos, mas que seja justamente apenas uma aparição, como pôde haver sido a de Lázaro, que é uma ressuscitação, uma graça de estar neste mundo por uma virtude de Deus, mas que não atingiu o estado da bem-aventurança final, que neste caso, sim a alcançou a Bem-aventurada Virgem Maria.

Retornando à deificação e à força com a qual Deus age, a vida da graça então se move dentro destes parâmetros: Deus se fez o homem e com isso completou a Criação, e Deus atrai o homem a si, para que seja transformado sem deixar de ser ele [homem], deus por participação. Por isso é essencial examinar nossas reais vontades. Em nossos dias a “oração de Jesus” suscita muitos adeptos, muitos seguidores, os ícones invariavelmente atraem pessoas de todas as origens e também suscitam uma grande adesão; há inclusive autores espirituais, Padres da Igreja, que são lidos mais hoje em dia do que em outros momentos da história. Busca-se com uma grande avidez, mas deve-se examinar isso espiritualmente, para não cair-se na profecia que está nos Profetas, e diz: “Enviarei fome a toda esta terra; não fome de comida nem sede de água, mas fome e sede de ouvir as palavras do Senhor. Os homens vaguearão de um mar a outro, do Norte ao Oriente, buscando a palavra do Senhor, mas não a encontrarão” (cf. Amós 8,11s). Por isso devemos vigiar para que esta profecia não se cumpra em nós e para que sejamos admitidos com humildade na graça de Deus; ser admitidos com humildade não significa tomar por nossa conta àqueles elementos que nos foram úteis para o nosso caminho, mas entrar caminhando, compreendendo o chamado de Cristo a seguir Seus passos, seguir Seus passos carregando a Cruz, em um caminho estreito. Não há nenhuma rodovia em direção a Deus, não há nenhum teleférico até Deus, nada nos livra da fadiga da Cruz, seja em uma vida muito longa, seja em uma vida muito curta, seja com obras manifestas de fé, seja com uma fé simples como a do bom ladrão, uma fé que chegou a abrir-lhe os portões do Paraíso e também nos abre as portas do Paraíso, porque essa fé simples do ladrão é uma luz em nosso caminho, como a fé do publicano no fundo do Templo que dizia “Senhor, tende piedade de mim”.

Temos que partir do ponto de que não somos chamados a suprimir essas coisas simples, mas repetí-las incessantemente. Na verdade, quando vamos à comunhão na Divina Liturgia, dizemos justamente isso: “Creio Senhor, e confesso, que Vós sois realmente Cristo, o Filho de Deus vivo, que viestes ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro”. Não posso receber o Corpo de Cristo, se não tenho a certeza de que sou o primeiro dos pecadores; se me aproximo murmurando julgamentos contra os demais, se creio que algo do que fiz me coloca acima dos outros. “Recebei-me, hoje, participante da Vossa ceia mística, ó Filho de Deus. Porque não revelarei Vossos mistérios aos Vossos inimigos, nem Vos beijarei como Judas; mas como o bom ladrão eu Vos digo: lembrai-Vos de mim, Senhor, em Vosso reino”. “Lembrai-Vos de mim, Senhor”, o clamor do fiel se acentua na medida em que mais se aproxima do alto; na medida em que se apaga a nossa penitência, na medida em que se apaga a nossa condenação; na medida em que se apaga o nosso temor de Deus, temos assim a clara certeza de estar desviados, de estar seguindo a nós mesmos, ou seja, de estarmos perdidos. E essa clareza Deus nos dá, dá-la o Espírito Santo, que ensina por meio da Igreja, que é Santa e da qual nos desgarramos quando pecamos.

Às vezes, quando professamos a fé verdadeira, nós podemos compadecer-nos, ou alguns indignar-se contra aqueles que praticam uma fé mutilada, deformada, no entanto, nós quando pecamos, somos piores do que eles, porque mesmo conhecendo-a, nos desgarramos da verdadeira vida; temos uma luz mais forte que nos ilumina e mesmo assim erramos com muito mais gosto, por isso, isto é o que mais deve forçar-nos a mudar pela humildade. É aí, quando compreendemos que tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus, e se o Senhor volta a colocar em nós este desejo de amá-lO, e viver conforme Seus mandamentos, o que é o mesmo, que então aprendemos a ir por esse caminho de humildade e, inclusive, a ver naqueles contratempos e obstáculos que surgem em nosso caminho, uma palavra do Senhor destinada a edificar-nos, a fazer-nos crescer, a santificar-nos, a arrepender-nos, a ajudar os outros, a seguir neste caminho para o Pai, que como todo caminho, ou melhor, toda trilha, toda pequena trilha, tem os seus perigos, mas nisto temos o auxílio daqueles que nos precedem, aqueles cuja fé é uma tocha [que ilumina o caminho] para nós e que nos permite seguir nesta escuridão crescente no caminho para o alto. Se erguermos a vista com fé, veremos na vida da Igreja muitas tochas que nos precedem e que vão com a vida da fé iluminando nossos passos; se não as vemos, então possivelmente estamos seguindo outro caminho, um caminho construído sobre nossa presunção. Porque a luz de Deus vem a nós para nos iluminar e para que nos arrependamos, não para jogar em nossa cara nosso pecado ou para zombar dele, mas para nos curar, e é aqui, quando falamos da santificação, da deificação, que também precisamos falar da vida do pecado, que é morte, que é dano, que é míngua, que é perda.

Às vezes, as ideias que temos sobre o pecado e a graça são o principal obstáculo para que possamos viver a vida de Deus. Quantas vezes uma pessoa que acredita estar buscando a Deus se depara com o pecado do outro ou com o pecado que acredita que tem o outro ou com o que lhe parece ser [o pecado do outro] e está certo de que deve ser assim e se sente afastar-se de Deus porque, ao julgar o outro, ao condenar o outro, o está invejando. Cobiçar o pecado do outro acontece, da forma mais eficaz, pela condenação [do outro mediante nosso julgamento], porque não nos permite reconhecer nossos verdadeiros sentimentos. “Como pode ser que Fulano cometa pecados e eu tenha que suportar não pecar para ficar parado no mesmo lugar?” Creio que, no que diz respeito a essa mesma pessoa, se pensássemos que ela teve um acidente de carro nós não a invejaríamos e nem iríamos julgá-la, pensaríamos talvez: “Bom, coitada, espero que se restabeleça, vou rezar por ela”, “que perda terrível, oxalá possa recuperar-se, oxalá esteja bem preparada para encontrar-se com Deus”. Quando nos sentimos donos da situação, sentimo-nos muito misericordiosos de acordo com nossa própria ideia. No entanto, quando vemos que o outro peca, devemos ter exatamente a mesma disposição; se compreendemos que o pecado é um dano, então não invejaremos, através do julgamento, sua posição equivocada, não procuraremos obter o que está fazendo o outro perder-se. Não pensaríamos assim se tivéssemos misericórdia e com humildade pedíssemos ao Senhor que tenha piedade também de nós, não permitindo que caiamos, que sejamos humildes e operantes nas mãos de Deus, ativos nas mãos de Deus, ou seja, de mãos juntas.

Há um poema do poeta russo Alexei Jomiakov, que diz: “forte é a mão daquele que ora”. Forte é a mão daquele que ora, e isso é para nós um indicador de que nossas fraquezas, muitas vezes não são fruto da natureza que herdamos, mas fruto da natureza que arruinamos; que por falta de cuidado espiritual, por falta de discernimento, por falta de sobriedade, por falta de vigilância do coração, por falta de humildade, estamos deixando passar todas as oportunidades que Deus nos dá; não por inadvertência, mas por uma preguiça espiritual, uma profunda preguiça espiritual que temos. Ao desejar a santificação do próximo e não buscá-la para nós mesmos, porque a forma mais eficaz de ajudar o próximo a ser santo é empreender o caminho de Deus, empreender esse caminho, no qual, passo a passo vamos despojando-nos daquilo que acreditamos que somos. “Eu sou muito sincero!”, muitos dizem, quando na realidade geralmente faltam à caridade em todos os sentidos, isto não é sinceridade. “Eu sou muito bom!”, mas talvez seja porque é muito cômodo ser complacente e não buscar o bem para os demais. “Eu sou muito generoso!”, mas talvez não dê do que lhe sobra, ou dá o que lhe parece que os outros necessitam, mesmo que saiba que vá fazer mal. Então, também encontramos os que dizem: “Eu sou muito humilde!”, e talvez o seja por não terem colocado para trabalhar quaisquer dos dons [recebidos] de Deus, como aquele que fez um buraco profundo, enterrou o que Deus deu a ele e disse: “Eu sou humilde, não me gabo das obras de Deus”. Por isso, nada melhor que colocarmo-nos em caminho e aprender dos Padres [da Igreja], aprender da fé da Igreja, nutrirmo-nos dentro da Divina Liturgia, que é o colo da Igreja, é o peito [que nutre], podemos até dizer que é o útero de Deus, onde somos refeitos. Não somente temos fé e vamos render culto, mas somos refeitos em cada Liturgia na medida da nossa fé, pela qual somos levados a Deus, a fé nos tem a nós, no melhor dos casos; Deus nos pescou, no melhor dos casos; Deus está em nós e nós em Deus. É uma experiência muito comum, muito habitual, melhor dizendo, experimentar na Liturgia isto, que Deus está em nós, pela paz que experimentamos, e Deus está ao nosso redor: “O anjo do Senhor é sentinela ao redor daqueles que o temem, e os livra” diz o Salmo (34,7). É sentinela ao redor, mais precisamente, acampa em torno, e esses fieis experimentam uma proteção, experimentam uma liberdade para poder dedicar-se ao bem, que é o fim último da liberdade. Liberdade não é a capacidade de fazer o mal, é a capacidade de escolher entre um bem e um bem melhor, entregar-nos sinergicamente à graça; nossas ações movidas pela graça de Deus, infundidas pela graça de Deus, operam como deveriam.



A graça de Deus, desde um determinado ponto de vista, nos supera em muito mais do que o que a mente pode chegar a compreender e, por outro lado, somos quase feitos com natureza divina, estamos feitos para viver nela. Se alguém compra um carro novo, quer que esse carro funcione bem, custou-lhe muito esforço para obtê-lo, estará muito feliz com este novo carro que vai levá-lo a muitos lugares e visitar as pessoas que ama e fazem coisas que são boas, agradáveis, vai cuidar muito, antes de tudo, alimentá-lo com o combustível adequado e se o seu bolso permitir, vai tentar fazê-lo com o melhor combustível possível, projetado para esse carro. Mesmo que a comparação não seja exata, entretanto, podemos dizer, precisamente, que estamos feitos para viver em Deus, não que Deus seja nosso combustível, não há um “combustível espiritual”, porque Deus não é uma coisa que é usada para o que se quer, ou algo que se absorve e fica alheia a nós, porque o veículo não é transformado pelo combustível , este simplesmente o move. Por outro lado, nós, pela graça, somos transformados em outro ser. Podemos, se quisermos, compará-lo com a água e a planta, que atinge sua finalidade, a água não perde seu ser e a planta é transformada. E Deus vem a nós e faz com que todas as distintas plantas do jardim, mesmo que sejam da mesma espécie, uma distinta da outra, de forma que o ponto de maturidade de uma, não seja o ponto de maturidade de outra, nem o tempo de frutificação, nem a qualidade dos frutos, nem a forma, nem tampouco as mesmas possibilidades, por isso devemos cuidar que essa água de Deus, que vem a nós também seja conduzida para o que Deus a colocou, para que demos frutos de acordo com a nossa espécie.


Fonte:Teóforos